O Contrário de B. – Estudo
simplifidado
Sabe aquela indisciplina que você se permite quando lê um
gibi? Mas não qualquer gibi, daqueles mais
antigos, o formatinho, que tinha cerca de três,
quatro ou até cinco histórias numa revista só, pois
foi assim que me senti ao começar a
ler O Contrário de B., inicialmente pensei nele como
um livro despretensioso, sendo apenas a complementação do que ele iniciou em seu livro anterior, obra essa inclusive
vencedora de festival literário,
bom, mas não importa isso agora, quando li
a primeira página deste novo livro, mais
precisamente a primeira estrofe do capítulo I,
Pater Familias, descobri numa porrada só que
ali em minhas mãos segurava um livro bem maior
do que prejulgava ser, foi um baque enorme me permitir adentrar na mente
conflituosa dos personagens que o Bruno foi largando nas páginas desse primeiro capítulo,
fabuloso, diga-se em voz alta, havia tempo que não me
surpreendia assim e olha que constantemente empreendo buscas incessantes de
algo bom para ler, este aqui me caiu nas mãos
vindo na base do empréstimo, meu amigo João Gilberto leu e fez belos comentários a
respeito dele, me disse que valia a leitura, isso atiçou minha curiosidade, sei que ele também é bem criterioso com o que lê, pois
quase nunca fala bem de escritores contemporâneos,
este caso aqui é realmente diferenciado,
comecei a entender a lógica de sua vitória em concurso de literatura, tem que estar sempre atento e escolher
bem temas e palavras que vai usar, além disso
tem que ter uma dose cavalar de talento natural pra coisa, que é o caso do Bruno. Ah, voltando à minha
forma de leitura inicial que citei lá no
começo do texto, onde dizia que
leria esse livro como quem lê um
gibi, pois numa revista em quadrinhos você pode
ler uma, duas, três histórias sem problemas, com ou sem sequência lógica, bom, foi assim que comecei minha leitura, felizmente logo descobri
que isso seria impossível, não consegui ler o primeiro dessa maneira, tampouco os seguintes, as
palavras me consumiam, roubavam meu interesse, minha atenção, fui sugado de uma só vez, assim
como foi a leitura, numa só
tacada, terminei confuso, atordoado e sem saber por onde começar, precisei de uma releitura, dessa vez fui armado, recomecei e fui
pontuando tudo que foi me chamando a atenção, a
coisa foi tomando proporções estranhas, um caos
intelectual assombrava meu caderno de anotações,
precisei elaborar melhor a forma de destacar os pontos principais daqui,
reeduquei minha vontade de explanar minhas impressões.
Não
existe qualquer tipo de engate ou conexão entre
os contos, eles são independentes e vivos, acho
melhor assim inclusive, noto fácil que
as histórias descritas no livro soam
angustiantes, afobadas mesmo, como se tivessem pressa para acontecer, mesmo
nesses termos cada página fica passando com o sabor
de desejo interrompido, afinal o autor sempre deixa a cena lacrada, tentando não destruir as provas desse crime que ele constrói capítulo a capítulo, isso empolga o autor, essa trama psicológica que faz a mente travar batalha com a curiosidade em voga, tudo
escancarado e escondido ao mesmo tempo, isso empolga o leitor e faz de cada
conto alicerce para muito mais que ainda está por
vir. A aposta literária aqui é alta e se não for bem elaborada
costumeiramente destrói grandes textos, é o que normalmente acontece com livros bem recheados, extensos, com suas
quinhentas e tantas páginas, se o calhamaço não possuir regularidade tende a
jamais ser lido por completo, a menos que se torne moda, pelo leitor que se diz
fissurado em algum outro conto que leu anteriormente do mesmo autor, por esse
motivo a aposta que falei deve ser na hora certa, quando o livro estiver
amadurecido, na dose ideal, nada de pressa nesse momento, livros mal revisados
destroçam carreiras.
Apreciei bastante cada conto, uns mais outros menos
outros mais ainda, como é natural de ser, os que
apreciei mais são excelentes e os que apreciei
mais ainda estão divinos, noto estilo próprio, técnicas são usadas com a intenção lógica de prender a atenção do
leitor e funcionam muito bem, vi que o uso contínuo de
repetição de palavras tem um propósito lógico e ilógico de vez em quando, tudo para dar ainda mais força ao discurso do escritor, os dois primeiros contos devastaram qualquer
receio que eu pudesse ter, desmantelaram minha mente e fizeram-me crer que esta
seria uma viagem literária fantástica e imortal, não esperava ser arrebatado logo
de primeira, confesso que tremi, fiquei aterrorizado, a ponto de tentar
esquecer todo mundo lá fora e me concentrar somente
nos personagens e na trama pesada que compõem
Pater Familias, aguçadamente degluti cada frase,
palavra, sílaba, letra, pensamento
subliminar, qualquer coisa que gerasse desconforto em minha mente, pois este
livro incomoda, esfaqueia, perfura os olhos e ainda assim é desejado que continue nessa tortura maravilhosa, afinal um livro que não te desperta sensações
jamais consegue perdurar, é na
literatura que incomoda que encontro as melhores obras, coisas do Nietzsche,
sinto nessa hora que outras maiores surpresas virão, não sou adepto da idéia de que o paraíso literário está escondido na literatura fácil, já mastigada ao leitor, às vezes é preciso escavar a montanha
inteira para encontrar o diamante perfeito, neste livro aqui temos muitas
montanhas pra derrubar, este é
daqueles que tira o sono e faz levantar da cama para escrever mais algumas
palavras acerca dele, algo que vai sendo preparado pelo subconsciente. Admito
minha completa surpresa com quase tudo que li, apenas um não me era novidade, Dente de Cachorro já
figurou em um periódico que preparava enquanto
ainda insistia na literatura da multiplicação, como
já havia o lido tempos atrás já era sabedor da magia deste e
apenas fui confirmando que outros mais estavam me aguardando, outrora sinto a
fantasia miraculosa do Gabriel García Márquez, bem como a solidão
castigadora do Jorge Luis Borges, são dois
dos grandes que me vem na cabeça a
todo instante enquanto leio este livro.
No conto que dá nome
ao livro li com cautela, afinal este deveria ser o mais impactante dos
que estão espalhados neste livro,
portanto, não entrei desavisado na sala de
inquisição, logo nas primeiras palavras
nota-se fácil a preocupação do autor em nos fazer ler com o máximo de
atenção, vagarosamente, sem atropelos
e se houver algum que seja bem demorado, que dê pra
escutar os ossos das costelas se partindo um a um, bom, o personagem principal
da trama, B., é uma pessoa livre de preocupações, detentora de infinita dosagem de solidão e
desapego, não se importa por não ser benquisto e tende a se perder nos contrastes da cidade e/ou em sua
própria imagem refletida na
brancura dos carros e/ou na rejeição
intensa da juventude egoísta que o cerca e apedreja
todos os dias, isso simplesmente não
importa, mas um dia vem sua epifânia, um
rompante violento de raiva do mundo, a vontade louca de apagar tudo que não o conforta emerge da profundeza nefasta de seus olhos de pedra e suas
alucinações tomam conta de todo o
restante do conto-mor, não sei se o autor pretendia
isso, talvez somente precisava de um bom título
para o livro e decidiu por este, mas na minha menos importante opinião ainda penso que os dois primeiros contos estão psicologicamente e materialmente melhores escritos e majestosamente
catalisadores da mágica da literatura crua que o
Bruno aparenta buscar em seus escritos, penso até que
ele consegue isso fácil demais, comigo isso ficou
bem claro, até então.
Uma coisa eu reparei e pude constatar isso em quase
todos os contos mais íntimos e/ou autobiográficos (apesar de acreditar que não são, soam assim, mas não creio
que são, tenho muita certeza: ou o cara
sabe fingir tão bem quanto o Bukowski ou com
certeza precisaria estar numa crise existencial daquelas e estar vivendo por aí, debaixo de viadutos, sem comer, bebendo tudo que puder) tendem a
elevar a figura do pai ao posto máximo de
herói ou vilão, sempre nos pontos mais extremos, vejo aqui a necessidade maior de
afirmação da paternidade, a vontade de
um abraço infinito, o grito desesperado
em busca de um mínimo de atenção, isso lembrou demasiadamente o Franz Kafka, senti essa pitada
inusitada de revolta em alguns pedaços do
livro, algo tal qual Carta ao Pai, que li há pouco.
Outro ponto bem vasculhado aqui é a exploração dos diversos tipos de
loucura, encontrei vários modos discutíveis de eleição de protagonistas e
antagonistas, doces, excêntricos, egocêntricos, solitários, apaixonados, mártires de todo tipo possível de
louco que se cabe num livro de cento e poucas páginas
(cento e poucas páginas muito bem trabalhadas,
acredito que todos os textos dessa obra são
elaborados tão bem de maneira satisfatória, cultivando no leitor uma necessidade mórbida de consumir um próximo
livro do autor), ao ler Não Precisa Gritar descubro que
este conto é como um vitral, janelas ou
retratos antigos e novos da dura realidade de famílias
despedaçadas pelo egoísmo e falta de amor (ou excesso dele!) que ficam latentes em cada parte
do texto curto e generoso que é
distribuído muito bem em cada capitulo,
creio inclusive que alguma coisa dali realmente aconteceu, a riqueza de
detalhes assusta e convence fácil
demais, o discurso atravessa qualquer barreira de desconfiança de credibilidade, essas batalhas internas travadas na mente do pai,
dos filhos, da mãe, ou mesmo na visão de quem está de fora, sim, o leitor é atingido e tenta interagir, crucificam o sonho e aprisionam qualquer
solução amorosa possível, o que nos deixa afogados em cama de passividade, apenas sentindo a
tristeza se alastrando por todos os lados.
Distante seria um daqueles contos que por si só já rendem um amplo debate das
coisas do cotidiano, fala abertamente de como a família se despedaça fácil quando a figura máxima da
mãe vai se apagando, sua existência é necessária, para alguns, é explicito, isso demonstra
todas as facetas da guerreira que ele tem para se armar e não lutar, a covardia do chefe de família
cria ojeriza quase sempre que ele surge em cena, é o vilão da história, analfabeto de sentimentos,
a trama se desenrola principalmente na extrema ignorância e falta de amor real (o amor que surge aqui é cego, egoísta e medroso) que o homem
exala, não há salvação aqui, não há Deus, não há outro caminho para o menino, o
que sobra é pura lamentação, morte, resignação e um puteiro sem luxos.
Gibran em sua eloqüência
divina dizia “A vida sempre nos dará mais do que achamos que merecemos”, foi
essa a minha sensação ao terminar de ler Esse
Ultimo Sorriso, pois vi ali um emaranhado de sentimentos, tantos que ficou difícil até de enumerar aqui, mas confesso
que notei que as coisas subiam e desciam numa facilidade, era uma guerra cega,
loucura e sanidade, paz e desespero, tanta coisa, uma verdadeira salada mental,
fechando esse conto com uma bela dança
psicológica, não poderia ser mais claro e sem arrodeios, essa é uma das qualidades do autor, não se
perder em detalhes desnecessários,
isso seria completa afronta numa leitura tão
contagiante, aqui só bebo elixir de inspiração: Objetividade nata!
No que restou dos outros contos vi muitas aventuras
de traição largadas na cara do leitor,
famílias destruídas pelo ostracismo amoroso, amor partido em milhões de pedaços não-coláveis, a escolhida destronada
por não conseguir se manter impassível, a tragédia que aconteceu no desleixos
dos muitos que não se preocupam com as vidas que
lhes são dadas para cuidar, a falta da
figura paterna/materna ideal, coisas assim tão bem
elaboradas que já diziam tudo que não devemos precisar saber para tomar um partido. Relendo todo livro mais
uma vez ainda encontro tanta coisa nova, tanta imagem diferente do que imaginei
antes, tudo se modifica e fica ainda mais extraordinário do que já estava visualizado, este livro
com certeza merece estar na cabeceira da cama.
A paranóia que
habita este livro é servida em grandes proporções, diretamente nas veias sedentas do cérebro e
isso faz a coisa acontecer com muito mais intensidade e pega rápido, o livro já começa exibindo uma capa que deixa o cara perplexo, tentando assimilar aquela
foto psicodélica demais, é uma loucura demasiada, coisa muito surrealista para estes tempos
nossos, mas ela prende o cara fácil e
desfecha bem tudo que se forma na cabeça de
quem pega O Contrário de B. para travar batalha, é um livro que se tornará
atemporal, sim, apesar de algumas cenas onde se entrega o jogo completo, o que
importa realmente é a maestria da manipulação dos sentimentos dos personagens com uma prosa tão bem elaborada que até parece
algo que já vimos ou escutamos falar
antes, dá pra sentir veracidade em todos
os contos largados aqui para nosso deleite, tem horas que imagino o jovem Bruno
ruminando tudo aquilo ali que ele escreveu cautelosamente bem, onde a repetição das palavras e/ou versos funciona como um mantra ocasionando uma
reverberação da vontade, uma intensidade
ainda maior que a necessária, às vezes soa como um defeito psicológico de
quem retrata a cena, na verdade de quem participa dela, parece uma batalha de
oponentes ensandecidos demais para simplesmente crer que a vida é tão simples quanto o Sertão aparenta espremer na terra seca desta cidade que ele tanto cita, seu
habitat, seu campo de batalha, Petrolina, confessionário de suas artes não
admitidas, um dia vivi isso também e
agora com o auxilio destas palavras desnorteantes é que desenho pedaço do livro-sonho ou mundo-livro
que o autor tanto semeia página após página, amareladas por vida, este
livro cumpre seu papel máximo e tornou-se peça fundamental da engrenagem da nova literatura contemporânea desta região, Bruno é escritor nato e de imensa riqueza literária
esparramada em todos os cantos de seus livros, este foi o primeiro que li,
providenciarei ler todos os outros, os que foram lançados e os que com certeza virão, será um afago na alma.
John Williams B.

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