Pus, escarro e
sangue (noites compridas)*
Na leitura mágica da escrita violenta do alagoano Graciliano Ramos de
Oliveira, escritor de diversos clássicos da Literatura Brasileira, noto toda
amargura que pensei saber ter e ao fim da odisséia tive a máxima compreensão da
magnitude do sentimento da solidão em sua essência máxima, sim, esta ANGÚSTIA
contagia fácil. O personagem principal enfocado na história do Graciliano Ramos
é um senhor rabugento, não é má pessoa, mas, não se dá bem com todos, tem baixa
auto-estima, reclama da vida o tempo inteiro, ganha pouco, não é feliz no
trabalho, até tem escrúpulos, possui grande antipatia por pessoa com um
requinte mais apurado que o seu e está perdidamente apaixonado por Marina, não
admite, mas, é bem evidente. O texto destrincha sua vida modesta que vai se alinhando
com uma nova face, o casamento, que acima de tudo é mais complicado do que ele
imaginava, a começar pela noiva, que se revela uma simples imitadora das
madames que ela venerava, as mesmas que ele odeia ver passar nas calçadas da
vida.
O que mais se nota nas páginas da obra é a descrição carrancuda do
personagem acerca dos outros envolvidos na história, Julião Tavares é o seu
alvo mais ativo, pois, criou uma raiva grandiosa contra ele, que o atormentou
no sono por diversas vezes, tanto é que roubou-lhe Marina, não que ela fosse
uma mulher decente, longe disso, afinal, ela não era, contudo, estavam com
planos de matrimônio, fazendo-o contrair dividas que não estavam em seus
planos, tentando alegrar os mimos da noiva, em vão, pois, bastou surgir em sua
frente um homem com condições de fazer dela uma dama da sociedade para que seu
noivado se dissipasse no ar, estes momentos são descritos com imensa raiva e
até torpor, senti e visualizei diversas imagens desconexas, repetitivas,
convidativas ao desespero, o ódio estava bem presente nesta hora, a boca
esfumaçava com o sabor acre da derrota. Algumas páginas adiante, após muito
resmungar acerca da má escolha de Marina é que senti altas dosagens de
Angústia, há um momento em especial que fez meu corpo paralisar e a leitura me
envolveu num delírio cruel e amargo, no banheiro, onde se vislumbrava sempre
cenas de sensualidade e fantasias impossíveis, há um “encontro” desses onde
Marina, claramente decepcionada, se põe a lavar o corpo, fraca, abusada, perdida,
largada, enganada e sem rumo, amaldiçoada, ou como li na obra: escangalhada,
ali se descobre sua gravidez, ao tempo que a menina delicada e inocente morre e
dá luz a uma mulher sem honra, cheia de náuseas, nessa hora a angústia domina o
personagem e dá pra sentir o estômago embrulhar, a decepção toma conta de tudo
e a vingança surge como única opção, ou seja, é tempo de dar cabo do traidor
covarde.
A vingança está descaradamente impregnada nesta cena:
“Era
evidente que Julião Tavares devia morrer. Não procurei investigar as razões
desta necessidade. Ela se impunha, entrava-se na cabeça como um prego. Um prego
que atravessava os miolos. É um estúpido, mas eu tinha realmente a impressão de
que um objeto agudo me penetrava a cabeça. dor terrível, uma idéia que
inutilizava as outras idéias. Julião Tavares devia morrer.” (p. 140)
Contudo, mesmo com todo o sentimento destroçado, ele não guardava rancor
de Marina, tampouco queria seu mal, era um ser amargurado, tristonho, mas, não
queria que sua maldade fosse direcionado à pessoa errada, seu alvo era um só:
Julião Tavares.
“Marina
era instrumento e merecia compaixão. D. Adélia era instrumento e merecia
compaixão. Julião Tavares era também instrumento, mas não tive pena dele. senti
foi ódio que sempre me inspirou, agora aumentado.” (p. 140)
Visivelmente um trecho empapado na angústia que faz desta obra um
verdadeiro caos desarticulado na mente do leitor, que se deixa envenenar com os
trechos cada vez mais sofríveis da vida de um velho homem solteiro e desnorteado.
Convenço-me fácil de que este é bem mais que um simples hino à solidão, é algo
além do que possa ser descrito, a imagem construída pelo autor é doída e
machuca profundamente a quem tem qualquer apego pelo fraco, pois, é o que ele
é, um homem fragilizado demais. Como se já não bastasse a negatividade nata do
personagem ainda havia no livro espaço para mais uma estocada, um suicídio, não
um simples suicídio, esse foi daqueles que nos faz pensar bastante e não agir
na impulsividade, neste pequeno trecho da história senti calafrios, coisa que
não sentia desde ler o Werther, tudo precisa ser repensado, Seu Evaristo me
ensinou isso...
Ainda mais angustiante é a inexplicável presença daquele pedaço de corda
em seu bolso, presente que ganhou de Seu Ivo, apertava-lhe até marcar a mão,
tinha vontade de esganar Julião Tavares com aquele apetrecho, nesta hora vê-se
claramente a neurose atingir valores mais elevados, a loucura já bate à porta.
Enquanto pensava numa maneira de desgraçar de vez com a vida do facínora
toda sua vida se desmanchava, sobrevivia cheio de rancor e mágoa, notoriamente
o título faz jus aos momentos finais da obra, pois, a angústia é latente:
“O
doutor chefe de polícia estava ali tomando café, de cabeça baixa, preocupado
com alguma encrenca. Que é que podia acontecer? Ir para cadeia, ser processado
e condenado, perder o emprego, cumprir sentença. A vida na prisão não seria
pior que a que eu tinha.”
(p. 155)
Ao se indagar sobre a vida na prisão fica clara toda a paranóia que se
forma em mente, pois, dá pra sentir os devaneios criados por conta dos muitos
medos que o personagem não tem vergonha de apresentar:
“Não
posso encostar-me às grades pretas e nojentas. Lavo as mãos uma infinidade de
vezes por dia, lavo as canetas antes de escrever, tenho horror às apresentações
aos cumprimentos, em que é necessário apertar a mão que não sei por onde andou,
a mão que não sei por onde andou, a mão que meteu os dedos no nariz ou que
mexeu nas coxas de qualquer Marina. Preciso muita água e muito sabão. Viver por
detrás daquelas grades, pisar no chão úmido, coberto de escarros, sangue, pus e
lama, é terrível. mas a vida que levo talvez seja pior.” (p. 156)
Rubor tomou conta de meus pensamentos nessa hora, tantas idéias
massacravam meu raciocínio, as coisas tomavam rumo com rapidez e não se
questionava nada acerca das coisas que ele largava no papel, a vida do homem se
desfazia nos sonhos vingativos que ele construía em larga escala, esse
empreendimento ele articulava fácil.
“A cidade estava em cio.” (p. 160)
Nesse momento notei que Luís também estava sentindo a necessidade do
pecado e das safadezas para si, houve um encontro com uma prostituta no inicio,
mas, nem chegou a consumar o ato, a moça estava com tanta fome e era tão magra,
acredito que não inspirava qualquer tesão. Ele reconhecia nos outros esse
dilema, mas, esquecia-se de olhar para dentro de sua imagem esquelética e
entristecida, um homem sem desejos carnais necessários. Esta é sem dúvida
alguma, a leitura mais densa, onde as imagens se formam sob uma neblina que o
autor, intencionalmente, coloca em seu texto, pois, é carregada de detalhes e
frases repetidas que tampam toda a passagem de idéias, é preciso ler o texto
com atenção e sensibilidade, apesar da escrita ser tão crua há nessa obra tanta
entrelinha, é grotesco, mas, ainda é possível encontrar ternura nas palavras,
em todas elas.
Na cabeça assassina do personagem pouco se diz, apenas ecoava sua
sentença prolatada:
“Trinta
anos de prisão, trinta anos de prisão.” (p. 195)
Nesse determinado ponto senti que a angústia deu lugar à insensatez,
psicoses ameaçavam seus planos e ele se desentendia em toda sua arquitetura
psicológica de momentos esbagaçados por neuroses de solidão. Os instantes
finais de seu crime atordoam a leitura, seu nervosismo é intenso, chegando até
a sufocar o leitor, sim, senti que essa escrita tencionava essa sensação, pois,
Angústia enforcou-me com tanta veemência, isso ficou bem claro.
A história de Luis da Silva é complexa, amarga, violenta, covarde e um
tanto odiável, todos esses elementos juntos só vingam quando são manipulados
por uma mente criativa e poderosa, esta é a minha maneira de ver a excelência
desta “Angústia”, aqui a literatura perpetuou amaldiçoadamente linda. Passei
algumas semanas digladiando com este livro, porém, foi uma batalha prazerosa e
que me fez enxergar bem além da mesmice que alguns podem imaginar existir na
Literatura Brasileira, pois, este tal Graciliano Ramos é um dos mais completos
escritores que já tive a oportunidade de ler e não há nada que desabone sua
escrita, que mesmo tantos anos passados continua saboreável, as palavras podem
soar estranhas, o comportamento, as pessoas, o mundo, ainda assim viajei
ininterruptamente nesta história mágica das coisas do cotidiano da vida de um personagem
que poderia ser qualquer um. Este livro merece leituras, releituras,
discussões, brigas e todos os elogios possíveis. Eu recomendo!
*Simples estudo acerca de “Angústia”, obra de
Graciliano Ramos





